Entrevista da Professora Amanda Gurgel

Olá amigos e amigas!

A Educação virou a bola da vez na mídia e o PIG (quem não sabe o que é pergunte ao Paulo Henrique Amorim), como sempre tenta transformar a colega em celebridade e desvirtuar o foco da discussão. Ao mesmo tempo que dá destaque a sua fala, “enxerta outros problemas” das escolas e as greves para induzir o leitor a outras reflexões, que nada tem a ver com a questão dos vergonhosos salários. Portanto, fiquem de olho porque em meio a tanta polêmica (kits do governo, livros didáticos criticados por todo mundo etc), a questão da Formação do professor e da valorização salarial são varridas pra baixo do tapete!

“Eu não entendo essa repercussão”
Publicação: 19 de Maio de 2011 às 00:00
Isaac Lira
Repórter

A professora de Língua Portuguesa, Amanda Gurgel, teve ontem a sua rotina
alterada. Nada muito brusco, mas pequenos detalhes denunciavam as mudanças. Na
assembleia dos professores, ontem à tarde, costumeiramente frequentada por
Amanda, vez ou outra alguém a abordava para dar parabéns. Da mesma forma, o
telefone celular da professora tocou bem mais vezes do que toca normalmente. Do
outro lado da linha, mais congratulações. O motivo para tanto reconhecimento é
um vídeo publicado no You Tube e difundido via Twitter onde Amanda expõe a
situação dos professores do Estado. O discurso foi proferido no último dia 10 de
maio, em uma audiência pública realizada na Assembleia Legislativa. Lá, Amanda
Gurgel falou sobre as dificuldades dos professores no dia a dia e sobre o
tratamento secundário dado pelos governos ao longo dos últimos anos à Educação.
Pela contundência, o vídeo resultante dessa fala foi tomando aos poucos as redes
sociais da internet. Ontem, nove dias depois, o nome “Amanda Gurgel” chegou a
ser o sétimo mais citado no Twitter em todo o Brasil. Gilberto Gil e Zélia
Duncan citaram o vídeo em suas contas no microblog. Marcelo Tas, apresentador do programa CQC, também fez uma postagem no Twitter, além de publicar em seu blog a mesma gravação. Amanda vê a rápida difusão do vídeo com ressalvas. Durante a entrevista concedida à TRIBUNA DO NORTE, a professora fez reiterados pedidos para que o “discurso político” e “a situação dos professores” tivessem mais peso na publicação do que a sua própria imagem. “Queria focar no discurso político, porque eu não tenho o menor interesse de focar na minha imagem”, disse. Jogada repentinamente no turbilhão das redes sociais da internet, Amanda Gurgel ganhou até mesmo perfis falsos no Twitter e no Facebook.

“Não participo dessas redes sociais. Tenho uma conta no Orkut, mas nem foto tem lá. Fico surpresa com toda essa repercussão porque o meu discurso não trazia nada de novo. Qualquer professor conhece aquelas situações descritas”, complementa.

A preferência da professora pelo lado “político” do vídeo em destaque vem do seu envolvimento no movimento sindical e da filiação ao Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU). Ela participa ativamente do movimento grevista em curso por parte dos professores e defende a mobilização como forma de diminuir as dificuldades da categoria e dar mais qualidade à educação. “Nesse momento, é muito importante para a nossa categoria a manutenção desse movimento”, opina.

Conte o início da sua história como professora.

Olha, eu preferia começar falando sobre outro assunto. Porque o mais importante
na minha fala, que foi transformada em vídeo, e nessa repercussão toda que está
tendo, é que isso reflete uma situação existente há muito tempo na nossa
categoria. Quem é professor há 20 ou 30 anos conhece o processo de degeneração
pelo qual as escolas vêm passando. Isso é o principal e não a minha imagem ou
até mesmo as minhas palavras, mas a situação. Nós temos diversas discussões em
nível nacional. Existe, por exemplo, o Plano Nacional de Educação, que está
sendo discutido e são essas as questões principais. Eu não quero que as pessoas
me vejam como aquela professora que falou e ficou famosa. Eu sou realmente uma
professora que pega três ônibus todos os dias para ir ao trabalho e não acho
isso bonito. Eu não acho isso interessante. Eu acho que essa é uma situação de
opressão.

Depois da repercussão do vídeo, você aderiu ao twitter?

Não. Eu não participo de nenhuma rede social. Mas fiquei sabendo hoje que há uma
conta com meu nome. Minha irmã viu e me avisou. Mas a conta não é minha. É um
fake que está tanto no Twitter quanto no Facebook. Eu na verdade estou chocada
com essa expansão tão rápida, que pode servir tanto para o bem quanto para o
mal.

Como é o seu cotidiano como professora?

Eu trabalho em duas escolas. Se tivesse noção da repercussão que aquilo teria,
eu teria falado sobre a saúde do trabalhador porque eu sou inclusive vítima
disso. Eu adoeci e precisei mudar de função. Hoje estou afastada da sala de aula
e desenvolvo atividades pedagógicas na biblioteca e no laboratório de
informática. Eu adoeci em decorrência da minha atividade em sala de aula. O que
eu tentei foi falar sobre a condição de todos os trabalhadores. Daquele
professor que tem o carro, mas não pode usá-lo todo dia porque não tem dinheiro
para a gasolina. Porque a realidade dos trabalhadores é essa. Eu por exemplo
moro em Nova Parnamirim e trabalho em Nova Natal e preciso acordar às 05h para
chegar no horário. A minha realidade é mais suave, porque eu não tenho filho e
não preciso dividir o meu salário. Na verdade, eu fico olhando para os meus
colegas, da Escola Municipal Prof. Amadeu Araújo e da Escola Estadual Miriam
Coeli, e pensando o quanto eles são corajosos. Isso porque são muitas as
frustrações pelas quais nós passamos, desde quando escolhemos o curso de
graduação, com todas as ilusões dos bancos de universidade, até chegar à
realidade.

Você é professora de que disciplina e há quanto tempo?

Sou professora desde 2002. Entrei a Universidade em 2001 e no ano seguinte
comecei a lecionar no Cursinho do DCE. A minha experiência exitosa na educação
começou e se encerrou ali. Foi a experiência positiva que marcou. Sou professora
de língua portuguesa, o que traz uma frustração maior ainda. Terminei um curso
de licenciatura preparada para fazer com que os alunos produzam resenhas,
crônicas, etc. Mas me deparei com uma sala de aula onde o aluno não é capaz de
ler uma palavra simples como “bola”. Isso é desolador. A forma que eu encontrei
de canalizar essa frustração é lutando pela categoria.

Por que você se interessou pelo magistério?

Eu tive uma professora, chamada Claudina, de Espanhol, que era uma fonte de
admiração. Eu queria ser como ela. Eu sempre acreditei na educação. Não era a
melhor aluna da classe, mas era aplicada. Então, eu quis ser professora por
acreditar que nessa profissão seria possível mudar vidas.

Voltando ao vídeo, você preparou o discurso com antecedência?

Não. Eu prestei atenção nas falas anteriores e cada absurdo que era falado eu
procurava um contraponto. No final, saiu aquilo ali. E não há nada naquelas
palavras que não se diga todos os dias nas escolas, que os meus colegas não
estejam cansados de saber. A realidade é a mesma há muito tempo. Eu não entendo
toda essa repercussão. Talvez o grande lance do vídeo é ter sido gravado ali, na
Assembleia Legislativa e na presença da secretária estadual de Educação. Algumas
pessoas teriam medo, mas eu nem pensei nisso. Eu não tenho motivo para ter medo
de Betânia Ramalho e nem de deputado nenhum, porque eles não me deram emprego e não dependo deles para nada. São eles quem dependem da população.

Incomoda a repercussão que o vídeo teve?

Não chega a incomodar. Mas queria focar no discurso político, porque eu não
tenho o menor interesse de focar na minha imagem. É uma surpresa para mim, já
que essa é a nossa realidade e não é nada novo.

Você prefere não ser vista como um símbolo dessa luta por melhoria?

Nem símbolo de uma luta. Eu sou apenas mais uma peça. Assim como eu, há outros, milhares de trabalhadores. Eu não sou símbolo de nada e nem pretendo ser.

Você viu quem citou o seu vídeo na internet nos últimos dias?

Fico sabendo quando alguém me liga e fala. Soube que o Gilberto Gil e a Zélia
Duncan citaram. O Marcelo Tas postou o vídeo no blog dele também…
É. Isso entre as celebridades. Contudo, o importante é porque muitas pessoas vão
poder ver e não o fato de serem celebridades em si.

Publicado em
http://tribunadonorte.com.br/noticia/eu-nao-entendo-essa-repercussao/181782

4 comentários sobre “Entrevista da Professora Amanda Gurgel

    • Parabens a brasileira Amanda Gurgel. A educação deveria ser a classe mais respeitada e compensada com salario a altura pois a ela se deve a alfabetização do pais. Foi quem ensinou os políticos os medícos , os engenheiros, os presidentes da republíca a ler e a escrever.Quem abriu o mundo da leitura dos bons livros, do respeito e o patriotismo do povo Parabens a todas as Amandas da educação deste nosso imenso pais .

      • Você disse bem. Existem muitas Amandas por aí. Só não tiveram a mesma oportunidade ou não fizeram acontecer algo.Temos sempre aquela impressão de que uma andorinha só não faz verão, mas …pode trazer um raiozinho do sol

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