LER = Decifrar, colher e roubar


O tema de nosso Seminário deste semestre é TODAS AS LEITURAS… DO DISCURSO À AÇÃO NA PRÁTICA ESCOLAR e resolvi destacar os principais pontos abordados aqui, pois sabemos ser este um ponto crucial na prática docente atual.

“O mundo atual oferece à sociedade a comodidade da nova tecnologia consolidada pela Internet, dentre outras, a serviço de uma informação em tempo e espaço reais. Ainda assim, com toda a instrumentalização eletrônica existente à serviço do usuário interligado, depende-se, também, do livro que, guardado na estante, atrai a imaginação, como as bailarinas, ao dançarem nas caixas de música, hipnotizam ao som harmonioso dos acordes.”

“Na concepção mais antiga produzida sobre leitura, a preocupação maior se centra no texto, meio de veicular a mensagem, ficando o leitor num plano secundário. Antes da invenção da imprensa, reserva –se a muito poucos indivíduos o privilégio da leitura, e mesmo depois do século do humanismo, só é acessível a uma elite culta. Somente a partir da década de 80 do século XX, o desenvolvimento tecnológico e econômico exigindo continuamente a colaboração intelectual das pessoas leva a se indagar, de como se poderia realmente assegurar a todos o “direito de ler”.

Considero ser este um dos maiores entraves da popularização do hábito de ler entre crianças e jovens, principalmente entre as camadas populares: Esta idéia de que a leitura é algo erudito, que exige uma interpretação correta que estes, na mioria das vezes, julgam-se inacapazes de atingir.

A excessiva cobrança por parte da escola, com aquelas terríveis fichas de interpretação dos livros “extra-classe” são simplesmente abomináveis! Incluo-me como vítima nos tempos da escola, destas terríveis fichinhas que nos faziam acreditar que éramos extremamente incompetentes no complexo ato de ler…

“Bamberger argumenta em sua obra Como incentivar o hábito da leitura (2003) que o direito de ler significa igualmente o direito de desenvolver as potencialidades intelectuais e espirituais, o de aprender e progredir.”

“A leitura deve estar presente em todas as dependências da ESCOLA, penetrando nos lares, contagiando a comunidade. É difícil formar um leitor onde não existe, razoavelmente cultivado, o hábito da leitura. Se a família e a escola não lêem, esse processo, inicialmente imitativo, não vai ser realizado pela criança. Vai depender da postura do adulto que constitui o universo familiar do aluno, de uma atitude educadora envolvente, para que a criança compreenda e se aproprie da leitura de forma natural e prazerosa.”

Percebo diariamente entre meus pequenos aluninhos da Educação Infantil uma relação de prazer e envolvimento com os livros. Muitas e muitas vezes eles o preferem aos brinquedos na sala de aula, sentam-se no chão, observam as figuras, relatam suas histórias, algumas vezes inventadas e tantas outras já memorizadas por já terem escutado na rodinha e aí me pergunto:

_ Em que momento isso se perderá no futuro? Quantos ainda terão esta curiosidade diante de um livro daqui há 10 ou 15 anos? E quem será o responsável pela ruptura desta relação?

“No dizer de Laura Sandroni e Luiz Raul Machado, em sua obra A criança e o livro (1987), é na infância, principalmente em casa com a família, que se devem iniciar a ajuda e estímulos de forma agradável para cativar o leitor, a fim de conseguir definitivamente o hábito de ler. Cabe aos pais auxiliarem seus filhos, pois trata-se de uma aquisição. Se a criança não formar o costume da leitura até os doze anos, na idade adulta esse interesse já não fará parte do cotidiano de sua vida. Por isso, LER deve ser uma ação agradável para cativar o leitor definitivamente.”

“Na ESCOLA, ainda na visão de Sandroni e Machado (1987), cabe ao PROFESSOR trabalhar a leitura através de situações de prazer. Num trabalho planejado de acordo com as reais possibilidades da escola, deve observar os NÍVEIS DE LEITURA existentes entre seus alunos. Nessas etapas, precisa, ainda, levar em consideração as características dos educandos, suas necessidades e preferências. Baseando-se nas dificuldades de vocabulário e temática e no equilíbrio entre texto e ilustrações, vai procurar e selecionar as histórias adequadas.”

“O Professor, em relação aos NÍVEIS DE LEITOR, vai distinguir cinco etapas:

PRÉ-LEITOR- fase em que a criança começa a entrar em contato com o mundo exterior. Ainda não se encontra familiarizada com a escrita, e a imagem tem enorme importância. Os temas têm relação com a vida cotidiana: objetos, bichos, brinquedos, figuras familiares… ;

LEITOR INICIANTE- período em que as histórias são simples. Utilizam palavras acessíveis, rimas e repetições. Aparece o humor e as ilustrações visualizam o desenrolar da história;

LEITOR COM HABILIDADE DE LEITURA- a criança, nessa fase, se projeta no mundo. As histórias apresentam o elemento maravilhoso. Os medos e os conflitos são dissipados através de soluções mágicas;

LEITOR FLUENTE- a criança, nesse nível, se identifica com as pessoas e coisas. A leitura se apresenta num mundo a explorar: fonte de divertimento, de invenção, exercício de criatividade. As histórias se compõem de heróis e aventuras de caráter fantástico. Nos textos, a ação predomina e os diálogos são diversificados;

LEITOR EXPERIENTE- nesse tempo, o jovem possui uma atitude crítica e o exercício da reflexão se torna mais elaborado. Surgem os livros de mistério, com protagonistas jovens como os leitores. Aparecem os temas de ficção científica, romances de aventuras e de amor.”

“O fundamental é que os livros estejam à disposição de todos para serem examinados, folheados, lidos ou deixados de lado, para uma leitura posterior, para que, com o tempo, todos venham consolidar o hábito de leitura a partir das características pessoais e torná-la cada vez mais produtiva”.
“Quando o objetivo é criar o prazer de ler, a liberdade é uma boa receita.”
“Não podem ser associadas à obrigação para não se tornarem uma experiência desagradável.”
…De que meios e atividades que a Escola / Professor deve se valer para intensificar o interesse pela leitura??”
“Ao PROFESSOR cabe promover de modo permanente a leitura na ESCOLA por meio da construção coletiva de um ambiente “agradável”, com ações participativas capazes de atrair o leitor.”
>”Janson Prado e Paulo Condini, em seu livro A formação do leitor/pontos de vista, cita o conceito de LER proposto por Bartolomeu Campos Queiroz- Ler é somar-se ao mundo, é iluminar-se com a claridade do já decifrado. Escrever é dividir-se. Ler é cuidar-se, rompendo com as grades do isolamento.”
“Não basta procurar no dicionário o seu respectivo significado, uma vez que envolve idade do leitor, seu grau intelectual, seus gostos, sua cultura, a comunidade de leitores.”
“…lembrando Chartier, em A ordem dos livros.. (1999)a leitura é sempre apropriação, invenção, produção de significados. O texto, ao ser lido, ultrapassa o sentido atribuído pelo autor, ou pelo seu editor, ou, até mesmo, pelos seus comentadores. Cada leitor faz a sua interpretação da leitura de um texto.”

“Refletindo sobre a etimologia da palavra LER, observa-se que surge do latim legere. Inicialmente, ler significa contar, enumerar as letras. Depois, denota colher e, por último, comporta a idéia de roubar.= contém três noções que vale a pena associarmos à leitura. Na primeira, soletra, repete os fonemas, agrupando-os em sílabas, palavras e frases. É o ato primeiro de ler, e corresponde à alfabetização. No segundo momento, o verbo colher exprime algo já pronto, se relaciona à tradicional interpretação do texto. Busca-se, apenas, descobrir o sentido, mensagem ou tema do autor. Ele colhe o sentido como se tira uma laranja no pé.
Aparentemente, o leitor não tem poder algum, a não ser o de traduzir o sentido que estaria pronto no texto. Entretanto, o texto não se apresenta ao leitor senão como uma proposta de produção de sentido, que se aceita ou se rejeita. Trata-se de um pacto de leitura que constitui o que se denomina interação leitor/texto.
Existe, ainda, uma terceira instância para o ler que se relaciona à idéia de subversão, de clandestinidade e corresponde ao verbo roubar. Não se rouba algo com conhecimento e autorização do proprietário; logo, essa leitura vai se construir à revelia do autor, ou melhor, vai acrescentar outros sentidos, a partir da presença de sinais no texto, mesmo que o autor não tenha consciência disso. Nesse tipo de leitura, o leitor tem mais poder e vai, como diz Eco, em Seis passeios pelo bosque da ficção (1994), construir suas próprias trilhas no texto/bosque. Considerando a idéia de leitura como transgressão, Certeau, em A invenção do cotidiano(1994),(e você pode conhecer mais, neste artigo) em que compara o leitor a um viajante que, longe de ser escritor, fundador de um lugar próprio, mostra como este sobre o solo da linguagem viaja, circula sobre terras de outrem, caça, como nômade através de campos que não escreveu, recolhendo seus bens.”

Como o mestre Paulo Freire, a leitura de mundo leva a leitura da palavra, e partindo do universo do aluno, a leitura se apresentará como uma manifestação prazerosa, como uma atividade em que o leitor detém o poder de opinar, analisar, criticar, modificar, transgredir. Ao descobrir este poder, o jovem leitor perceberá que pode, a sua maneira, contribuir para modificar sua realidade.
Se você, leitor deste “humilde espaço”, ainda não conhece, assista ao filme “Escritores da Liberdade” (que você pode ler excelente resenha, AQUI). Ele traduz tudo.

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