Meio Ambiente e Espiritualidade

Dentre as inúmeras curiosidades do “fenômeno chamado Internet” destaco o fato de muitas vezes, termos a oportunidade de “conhecer” (mesmo que virtualmente) opiniões e o trabalho de pessoas que nunca vimos antes e que moram pertinho, quase vizinhas.
Ao ler artigos, muitas vezes, encontramos perfeita sintonia, e temos a
impressão de que o autor tem a capacidade de “sentir o tema”.
Sensibilidade é palavra chave para toda aprendizagem, para todas as questões,
sejam elas ambientais, sociais, exatas ou humanas.
Nesse caso específico, transcrevo o artigo do escritor, jornalista e
ambientalista Vilmar Berna

“Que valor tem um mico-leão ou um ecossistema inteiro para uma jovem mãe que não tem o que fazer para alimentar os próprios filhos, ou para alguém que não consegue se libertar das drogas, ou vive na solidão, ou não consegue ser feliz? Pessoas infelizes, solitárias, exploradas, humilhadas tendem a não conseguir estender o olhar além de sua própria miséria pessoal.

Como serão capazes então de sensibilizarem-se com a superexploração do Planeta, a poluição e destruição do meio ambiente, a extinção de espécies da fauna e da flora, se elas próprias se sentem ameaçadas de extinção. Segundo a OMS – Organização Mundial de Saúde, 19% de todas as mortes no Brasil poderiam ser evitadas. 84% da população reside nas cidades onde a
poluição do ar urbano mata 12,9 mil pessoas/ ano. 22% das pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, a deficiência de água tratada e de redes de esgoto tira a vida de 15 mil brasileiros/ano. No mundo a situação é pior.

Cerca de 13 milhões de mortes poderiam ser evitadas por medidas que tornassem o meio-ambiente mais saudável, disse a OMC. Quantas vezes ouvimos alguns dizerem que as lutas ambientais não são para países pobres ou em desenvolvimento, mas apenas para países ricos, que já resolveram a maior parte de seus problemas. Revelam uma visão romântica da natureza, como se a espécie humana não fizesse parte dela.

Por outro lado, só serão capazes de se dedicar às lutas socioambientais pessoas ricas, saudáveis, amadas e felizes? Em mais de duas décadas de militância convivi com parceiros e companheiros e companheiras de luta muitos já idosos, outros portadores de doenças graves, ou desempregados, ou pobres, mas que sempre encontraram – e ainda encontram – dentro de si a
força e a capacidade de continuar lutando por causas coletivas, como as ambientais. Que mistérios movem o espírito humano que faz as pessoas superarem condições existenciais injustas e mesmo a se superarem em capacidades e talento para se dedicar a lutas como as ambientais, sem expectativa de algum ganho financeiro ou vantagem de qualquer natureza?

E em boa parte dos casos sequer contarão com o conforto da vitória, pois geralmente se luta contra interesses econômicos e políticos poderosos! Muito menos devem contar com o reconhecimento da sociedade cuja opinião pode ser manipulada por pessoas inescrupulosas e gananciosas que colocam os ambientalistas contra a população, como estes se fossem
inimigos do progresso, do emprego. O que faz pessoas comuns se transformarem em guerreiros incansáveis na luta pela defesa do meio ambiente, muitas vezes tirando energia da própria sobrevivência pessoal ou de sua família?

O que faz essas pessoas mesmo ameaçadas de morte continuarem lutando pelo direito de todos, a ponto de perderem a própria vida, assassinados, como Chico Mendes, Dionísio, no Tinguá (RJ), Paulo Vinhas, no Espírito Santo, e tantos outros mártires da causa ambiental no Brasil?

O que faz uma pessoa como o Francelmo atear fogo no próprio corpo, em praça pública, numa tentativa de proteger o Pantanal ameaçado por usineiros de álcool e outros projetos predatórios?

Da mesma maneira, e por outro lado, o que existe no espírito dessa grande maioria de pessoas que, mesmo conscientes e sabedoras da gravidade dos problemas ambientais, ou da dor de semelhantes, escolhem ficar indiferentes, escolhem não lutar, escolhem usar a inteligência para encontrar desculpas para não fazer nada, em vez de arranjar um jeito de fazer alguma coisa?

O nome seria amor? Existem pessoas que amam demais, a ponto de entregarem seu talento, seu tempo e até mesmo sua vida pelo outro em sua acepção mais ampla, a ponto de incluir não só nosso semelhante, mas as plantas, os animais, o planeta inteiro? Existem pessoas incapazes de amar, de serem solidárias com o outro, que vêem apenas a si próprias e aos seus interesses?

O Papa disse certa vez que o capitalismo falhou com a humanidade em não acabar com a pobreza, ao se transformar numa ferramenta eficaz de acumular riquezas, mas não de distribuir estas riquezas. Neste sentido, creio que cabe também dizer que as religiões falharam ao não conseguirem que as pessoas priorizassem em suas escolhas a solidariedade em vez da
competividade, do individualismo, da ganância; o cultivo do ser, da espiritualidade, em vez do ter, do materialismo, raízes do estilo de vida humana sobre o Planeta e que está levando ao rápido esgotamento dos ecossistemas, à degradação e à poluição.

Normalmente, diante da grandeza e da enormidade dos problemas ambientais, as pessoas costumam imaginar que a saída está no progresso da ciência e da tecnologia, como se a ciência fosse neutra e não fosse a responsável, por exemplo, pelas bombas atômicas ou pela tecnologia suja que queima combustíveis fósseis. Alguns preferem acreditar no senso de sobrevivência da
humanidade e na tomada de consciência da opinião pública, mas esquecem que a maioria também erra, como no caso da crucificação de Jesus Cristo, ou na eleição de Hitler. Outros preferem apostar no surgimento de novos políticos, mais conscientes e comprometidos com os interesses do povo e não dos seus próprios.

O que há de comum em pessoas que pensam assim é que o mundo melhor que imaginam, começa no outro, depende do cientista, do instinto de sobrevivência ou dos políticos. Esquecem que o mundo melhor que queremos depende de todos, claro, mas começa em nós, principalmente.

De nada adianta uma nova ciência ambiental e novas tecnologias limpas se continuarmos usando o Planeta e o próximo como se fossem descartáveis. A reciclagem das latinhas de alumínio no Brasil, por exemplo, não serviu para diminuir a produção de alumínio e assim poupar o Planeta. Ao contrário, serviu para que a indústria do alumínio pudesse lucrar mais vendendo a
produção excedente para outros países que preferem não destruir e poluir o solo com a exploração da bauxita, nem arcar com a construção de novas fontes geradoras de energia para produzir alumínio.

Creio que é no espírito humano que vamos encontrar as verdadeiras causas – e as soluções – para nossos problemas, pois a destruição e poluição ambiental são efeitos de um estilo de vida egoísta, ganancioso, indiferente com a dor e o sofrimento alheios.”

Vilmar S. Demamam Berna
Fundador da REBIA – Rede Brasileira de Informação Ambiental, da Revista do
Meio Ambiente e do www.portaldomeioambiente.org.br

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